Bem, estou postando esse artigo visando a maior compreensão a respeito da Igreja de Cristo. Não fiz nenhum tipo de revisão na gramática, logo poderá se encontrar alguns erros. O artigo é bem exaustivo, mas é de grande importância!
A Igreja No Velho Testamento
INTRODUÇÃO
Gostaria de iniciar falando de dois aspectos
visualizados neste tema.
1) Anacronismo — Este tema é
muito importante tendo em vista as circunstâncias que envolvem a Igreja hoje.
Mas pensar neste tema — Igreja no Velho Testamento — para muitos seria pensar
em um anacronismo. Ou seja, usar um termo fora da sua época.
Muitos dizem que Igreja é algo apenas do Novo Testamento. Sendo assim, como
poderíamos falar de Igreja no Velho Testamento? Bem, no meio reformado isso não
seria um problema, mas no meio não reformado esse é um problema muito sério
tendo em vista o entendimento errado que muitos têm ao fazer uma separação
entre Igreja e a nação de Israel. Estes têm dificuldade de encontrar o conceito
de Igreja no Velho Testamento. Essa separação que se faz entre Israel e Igreja
é algo extremamente prejudicial para a visão e unidade da Escritura Sagrada
como um todo.
No entanto, este tema é pertinente e não
anacrônico. Ao contrário, ele é uma expressão fundamental da teologia reformada
e a expressão de sua verdade. Por ser teologia pactual, ela não faz distinção
entre Velho e Novo Testamento no que diz respeito aos conceitos essenciais, aos
símbolos e às cerimônias (abolidas em Cristo e por isso não praticadas hoje).
Os conceitos essenciais da Igreja são vistos no Antigo Testamento e esperamos
nos referir a eles.
2) Este tema é pertinente. Não é um
anacronismo, mas algo que enfrentamos hoje. Como nós lidamos com o Antigo
Testamento na Igreja? Temos encontrado um grande problema com a pregação
veterotestamentária em nossas igrejas. A pregação no Velho Testamento, além de
ser escassa por convicções equivocadas, ela é moralista na sua essência; não é
redentiva, não é regeneradora, mas simplesmente uma exposição moral. Toma-se um
texto do VT para se falar sobre a condenação de determinados pecados e como
devemos viver com base em um padrão. Hoje não se vê na pregação no Velho
Testamento a essência da natureza de Cristo e a obra de unidade que existe
entre o Antigo e o Novo Testamento. Por isso, além de ser um tema dos nossos
dias, e não estarmos usando nada fora do seu contexto, estamos usando um tema
extremamente pertinente.
Certamente os irmãos que têm um entendimento de
Israel distinto de Igreja, rejeitam rapidamente este assunto. Vamos ouvir o que
a Palavra de Deus tem para dizer acerca deste assunto para que desfrutemos
destas maravilhosas verdades redentivas reveladas de forma clara e essencial no
Antigo Testamento.
O TEMA
Em que lugar na Escritura podemos afirmar que o
povo do Antigo Testamento é chamado de Igreja? É interessante ver como os irmãos
que têm dificuldade com este tema partem de uma hermenêutica literalista e por
isso equivocada. Se não tem a palavra “igreja” com referência à Israel, então
Israel não é igreja, dizem eles. Se não tem a palavra “Israel” para igreja,
então igreja não é o Israel de Deus. Estes irmãos dizem que há necessidade de
se ter uma expressão literal para a tese ser confirmada. Mas temos de ver a
teologia como um todo. Vendo este princípio teológico pelo prisma da unidade da
revelação, podemos abrir as Escrituras em um texto de Atos 7: 38 — “É
este Moisés quem esteve na congregação no deserto, com o anjo
que lhe falava no monte Sinai e com os nossos pais; o qual recebeu palavras
vivas para no-las transmitir”. A palavra utilizada no texto — congregação —
literalmente é a palavra grega usada para “Igreja” (eclesia). Lucas está
dizendo aqui no texto o seguinte: “É este Moisés quem esteve na ‘igreja’
no deserto”. É exatamente o que Lucas está dizendo. O princípio é de que a
igreja envolve o povo que se congregava no Antigo Testamento. Sabemos, à luz do
Novo Testamento, que a igreja é formada pelos eleitos de Deus, os escolhidos do
Senhor antes da fundação do mundo e esse povo eleito por Deus é regenerado,
justificado, santificado e vive uma vida corporativa característica de um povo
tirado de rumos distintos para um caminho comum. O Novo Testamento nos dá a
visão muito clara de que os que pertencem à igreja do Senhor são aqueles que
foram salvos regenerados, santificados, convertidos. Se isso, então, é a
essência da igreja, que pessoas foram chamadas por Deus da escravidão do pecado
para a liberdade em Cristo, da morte para a vida para fazer a vontade de Deus,
temos que entender que no Antigo Testamento estas coisas também aconteciam.
Será que apenas a expressão, apenas o entendimento veterotestamentário da
vocação de algumas pessoas e da visão de nação como povo de Deus, seria
suficiente para excluir a idéia de que esta nação não era a nação que,
escolhida por Deus, fosse regenerada, convertida, justificada, santificada para
andar nos caminhos de Deus? Será que é uma visão correta afirmar que pelo fato
de se ter uma nação específica no VT (Israel) temos uma igreja distinta no Novo
Testamento onde povos de todas as raças estão envolvidos no número dos eleitos?
Caminhemos para o seguinte entendimento:
1) Temos de encontrar no Velho Testamento e na
revelação geral das Escrituras a verdade estabelecida de que o povo do VT cria
nas mesmas coisas que nós cremos hoje, no mesmo Deus e nas mesmas verdades que
cremos.
2) Temos de encontrar no Velho Testamento, em
toda revelação do VT que este povo, além de tudo, não só cria como nós, mas era
um povo que esperava nas mesmas promessas que nós esperamos.
Se não unirmos isso, se não aceitarmos e
compreendermos isso, teremos dificuldades de crer que Israel é a Igreja e que a
Igreja é Israel. À luz deste princípio partimos desta direção entendendo
a fé e a esperança como algo comum ao Velho
Testamento e ao Novo Testamento.
Antes de continuarmos, devemos dar uma explicação.
Vamos citar alguns textos do Novo Testamento e muitos poderão pensar: O irmão
vai falar de Igreja no Velho Testamento e, para isso, cita textos do Novo
Testamento? Mas o melhor interprete da Bíblia é ela mesma. Quem melhor
interpreta o Antigo Testamento é a própria Bíblia. Se nos dirigimos ao NT para
entender a interpretação do VT é porque partimos do princípio de que a
verdadeira interpretação do Antigo Testamento está no Novo Testamento.
Hebreus 11:1-3 e 8
“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam,
a convicção de fatos que se não vêem. Pois, pela fé, os antigos obtiveram bom
testemunho. Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de
Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”
(vss. 1-3).
Temos aqui um conceito neotestamentário de fé. No
v. 1 temos um paralelismo sinonímico. Paralelismo é uma característica da
língua hebraica. Lembramos, porém, que os autores do Novo Testamento eram
judeus na sua maioria e sua estrutura de escrita era obviamente judaica. Mesmo
escrevendo em grego, o pensamento era judaico tanto quanto sua estrutura de
escrita. Por isso temos este paralelismo que é uma forma de dizer a mesma
verdade de forma diferente. O que é fé? “Fé é a certeza de coisas que se
esperam”. O que mais é fé? “A convicção de fatos que se não vêem”. O
que é sinônimo aqui? Aqui “certeza” é sinônimo de “convicção”;
“coisas que se esperam” é sinônimo de “fatos que se não
vêem”. A fé está firmada não em dúvidas, mas em certezas, porém não
naquilo que se vê. Impressionante! Até porque a própria raiz da palavra “FÉ”,
na língua hebraica, se origina de uma palavra que na sua base, na sua múltipla
utilização como palavra de uma língua, traz a idéia de verdade, firmeza,
como uma árvore que bem plantada não se abala. Em hebraico a palavra “āman”
de onde provem a palavra “ĕmûnâ” que é “fé” ou “fidelidade” e que vem da
mesma raiz, tem um sentido de algo que está fincado e que não se abala.
A palavra “fé” usada no Velho Testamento é usada
agora no Novo Testamento como aquilo que não se abala e a convicção de coisas
que não podemos ver. Aqui está o grande paradoxo. Percebemos que estamos diante
de uma grande verdade! O autor da carta aos Hebreus nos dá o conceito de fé.
Mas de modo interessante o autor recorre à criação para estabelecer o parâmetro
do que podemos entender como fé e recorre a personagens do Velho Testamento.
Começa falando de Abel e discorre para poder dizer que a fé é a exata convicção
daquilo que não podemos ver. Ele diz que “pela fé Abel ofereceu mais
excelente sacrifício...”. Estabelece-se, então, um princípio de que Abel já
esperava algo que ele não via, mas sabia da sua existência. Nos parece ser este
o princípio pelo fato de que nos vss. 8-10 deste capítulo Abraão vai ser assim
também denominado. Está escrito: “Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu,
a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber
aonde ia. Pela fé, peregrinou na terra da promessa como em terra alheia,
habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa;
porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e
edificador” (Hb 11:8-10). Foi dada a Abraão a promessa de entrar numa
terra chamada “prometida”, sendo que esta terra “prometida” não era, na visão
de Abraão, o fim para o qual estavam determinadas todas as coisas. Por quê?
Porque segundo o texto ele aguardava a cidade que Deus havia
edificado. Mas alguém poderia afirmar que no texto não há nada dizendo que a
palavra “cidade” se refere a uma cidade celestial e que bem poderia
estar se referindo a Jerusalém, a cidade santa. Se alguém não se convence com
estes versículos devemos olhar mais à frente.
“Pela fé, também, a própria Sara recebeu poder
para ser mãe, não obstante o avançado de sua idade, pois teve por fiel aquele
que lhe havia feito a promessa. Por isso, também de um, aliás já amortecido,
saiu uma posteridade tão numerosa como as estrelas do céu e inumerável como a
areia que está na praia do mar. Todos estes morreram na fé, sem ter
obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando
que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra“ (vss.11-13).
Vejamos que “estes morreram na fé”, ou seja,
morreram crendo “sem ter obtido a promessa”.
“Vendo-as, porém, de longe, e
saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque
os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria. E, se, na
verdade, se lembrassem daquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar.
Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por
isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes
preparou uma cidade” (vss. 13b-16).
A palavra cidade usada no
texto é trazida de volta. Cidade aqui é sinônimo de
pátria celestial. Percebemos que quando estas personagens do Velho Testamento
eram chamadas por Deus, as suas vocações não eram para algo estritamente
terreno, mas para algo superior. A própria terra de Israel nunca foi um fim em
si mesmo. Ela apenas tipificava a pátria celestial. Segundo as palavras do
autor da carta aos Hebreus, quando ele trata no capítulo 4 acerca do dia do
Senhor, do dia de descanso, diz claramente que a terra de Israel não era o
descanso que Deus havia dado a eles; porque se fosse não falaria de “outro
dia” — “Ora, se Josué lhes houvesse dado descanso, não falaria,
posteriormente, a respeito de outro dia” (Hb 4:8). E no v. 9
lemos: “Portanto, resta um repouso para o povo de Deus”. Aquela cidade
tipificava a entrada na pátria celestial. Abraão chamado por Deus já cria e
aguardava, segundo o autor aos Hebreus, uma pátria superior à terra prometida,
pois esta era apenas um tipo e não um fim em si mesmo. Devemos nos lembrar do
conceito estabelecido pelo autor da carta aos Hebreus que “fé é a certeza de
coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem”. Existe fé eesperança estabelecidas
no Velho Testamento. Os chamados e vocacionado por Deus esperavam o mesmo que
nós esperamos: a pátria celestial, a nova Jerusalém. A idéia atual de que, para
a nação judaica a terra da Palestina foi posta como propósito final, é
equivocada à luz de toda Escritura Sagrada. Porque para os filhos de Abraão, os
que creram como Abraão creu, eles aguardam uma pátria celestial, a Nova
Jerusalém, a cidade santa. No Velho Testamento a fé estava estabelecida, os
crentes não viam, mas esperavam.
Abraão creu na ressurreição dos mortos. Os críticos
modernos afirmam que a doutrina da ressurreição não está estabelecida no Velho
Testamento. Nos parece que isso é um grande equívoco porque, quando Jesus foi
interpelado pelos saduceus, no Evangelho de Mateus, o Senhor lhes deu uma
resposta. O texto nos fala:
“Naquele dia, aproximaram-se dele alguns
saduceus, que dizem não haver ressurreição, e lhe perguntaram: Mestre, Moisés
disse: Se alguém morrer, não tendo filhos, seu irmão casará com a viúva e
suscitará descendência ao falecido. Ora, havia entre nós sete irmãos. O
primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou sua mulher a
seu irmão; o mesmo sucedeu com o segundo, com o terceiro, até ao sétimo; depois
de todos eles, morreu também a mulher. Portanto, na ressurreição, de qual dos
sete será ela esposa? Porque todos a desposaram” (Mt 22:23-28).
Jesus respondeu claramente:
“Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras
nem o poder de Deus. Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em
casamento; são, porém, como os anjos no céu. E, quanto à ressurreição dos
mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou: Eu sou o Deus de Abraão, o
Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos” (Mt 22:29-32).
Jesus fala baseando no texto do Velho Testamento
quando diz que Deus é Deus de vivos e não de mortos. Ele disse: “Eu sou o
Deus de Abraão, de Isaque e Jacó”. Jesus responde à questão dos saduceus,
que eram contrários à ressurreição, citando o Velho Testamento. Certamente que
Abraão, Isaque e Jacó já estavam mortos na época de Cristo. Por que Jesus diz
que Deus é Deus de vivos e não de mortos? Porque eles estão vivos. Jesus disse
a Marta: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Mt 11:25). É a
mesma fé estabelecida no Velho Testamento. A fé na ressurreição é estabelecida
em Gênesis no capítulo 22. Deus prova a Abraão:
“Depois dessas coisas, pôs Deus Abraão à prova e
lhe disse: Abraão! Este lhe respondeu: Eis-me aqui! Acrescentou Deus: Toma teu
filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá;
oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei.
Levantou-se, pois, Abraão de madrugada e, tendo preparado o seu jumento, tomou
consigo dois dos seus servos e a Isaque, seu filho; rachou lenha para o
holocausto e foi para o lugar que Deus lhe havia indicado. Ao terceiro dia,
erguendo Abraão os olhos, viu o lugar de longe. Então, disse a seus servos:
Esperai aqui, com o jumento; eu e o rapaz iremos até lá e, havendo adorado,
voltaremos para junto de vós” (Gn 22:1-5).
Estas palavras não eram de alguém que desejava
acalmar aos servos desesperados com a possibilidade da morte de Isaque, porque
eles sabiam o que estava acontecendo. Porém Abraão diz aos servos “eu e o
rapaz iremos até lá e, havendo adorado, voltaremos para junto de vós”.
Temos de atentar para as palavras: “havendo adorado, voltaremos”.
Vejamos o plural: Nós voltaremos! Ele não
disse, eu voltarei. O que significa isso?
Ele cria que se e o menino morresse Deus iria ressuscitá-lo. De onde tiramos
isso? Voltando a Hebreus 11 e veremos claramente esta verdade.
Hebreus 11:17-19
“Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu
Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu
alegremente as promessas, a quem se tinha dito: Em Isaque será chamada a tua
descendência; porque considerou que Deus era poderoso até para
ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde também, figuradamente, o recobrou”.
Abraão creu que Isaque iria ressuscitar. É a
convicção daquilo que não vemos, é a certeza daquilo que nossos olhos não vêem,
mas é a certeza! Nunca vimos ninguém ressuscitar, mas cremos na ressurreição
dos mortos. O mesmo princípio se aplica a Abrão. Ele nunca tinha visto ninguém
ressuscitar, mas cria na ressurreição. A Igreja no Velho Testamento cria e
estava fundamentada nos mesmos pilares que se fundamenta a Igreja do Novo
Testamento. Nós cremos e esperamos naquilo que não vemos!
Esse princípio da fé precisa ser melhor entendido.
Como surgia a fé no Velho Testamento? Temos de mencionar agora uma doutrina
perniciosa presente na igreja de hoje: O Dispensacionalismo. Através da
tradição dispensacionalista teremos profunda dificuldade de olhar para o Velho
Testamento e ver a conversão da mesma forma como a vemos no Novo Testamento.
Para o dispensacionalismo o homem do Velho Testamento tinha uma estrutura
diferente do homem no Novo Testamento. Se o homem do VT pudesse se arrepender
sem a ação do Espírito Santo, então para que o Pentecostes? Não havia
necessidade de Espírito Santo, pois o arrependimento seria algo humano. É óbvio
que toda e qualquer ação de caráter regenerativo, salvífico, era operado pelo
Espírito Santo de Deus para que eles acreditassem.
Voltando ao texto que fala de Abel em Hebreus 11:4,
vemos que ele ofereceu sacrifício a Deus pela fé. Se entendermos que o
sacrifício oferecido por Abel foi através de uma fé distinta, diferente, não
sendo pelo que lhe fora revelado, então, semelhantemente teremos de entender
que a fé de Abraão não foi depositada no que lhe foi revelado. Mas o texto diz
que Abraão creu. A mesma fé que Abraão teve é a mesma que Abel teve. É a mesma
estrutura. E todos os eleitos têm esta mesma fé que é a mesma fé do povo de
Deus na história, no VT ou no NT. Fé implica numa revelação de Deus. Só podemos
crer naquilo que nos é revelado pela Palavra de Deus.
Em Hebreus 4:1-3, lemos:
“Temamos, portanto, que, sendo-nos deixada a
promessa de entrar no descanso de Deus, suceda parecer que algum de vós tenha
falhado. Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas,
como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não
ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram.Nós, porém, que cremos,
entramos no descanso...”.
No v. 2 destacamos: “Porque também a nós foram
anunciadas as boas-novas”. “Também a nós”! Quem são “nós”
aqui? São os crentes da antiga aliança, os crentes do Velho Testamento. Da
mesma forma como aconteceu conosco, aconteceu com eles A eles foram anunciadas
as BOAS NOVAS! O EVANGELHO! Que coisa maravilhosa! O Evangelho, as Boas Novas,
foram anunciadas aos crentes da antiga aliança.
É necessário um comentário. Qual a distinção do
Novo para o Velho Testamento? Não há distinção essencial, mas há distinção da
relação entre aquilo que é figura, entre aquilo que é símbolo e o que é
simbolizado; entre o que é tipo e o que é tipificado. Os crentes do Velho
Testamento eram salvos pela revelação de Deus, objetiva e subjetiva(iluminação).
Vemos isso com o grande teólogo reformado Dr. Geerhardus Vos no seu livro
Teologia Bíblica (Biblical Theology) que é um livro extraordinário.
Dr. Vos coloca o princípio da revelação assim: A revelação é objetiva e
subjetiva.
Revelação Objetiva e Subjetiva
(Iluminação[i]).
Revelação objetiva são os atos históricos de Deus,
manifestados
na própria história.Isto é, cada ato revelacional
implica em um ato histórico. Exemplo:
Jesus veio a este mundo. Isso é um ato histórico.
Esta é uma revelação objetiva. Revelação subjetiva (Iluminação) é
a revelação histórico-objetiva que é trazida
ao entendimento do indivíduo,
a regeneração, conversão. O que permanece hoje é
a iluminação, pois a revelação objetiva
cessou, pois não existe mais revelação histórica. Ela se
encerrou como Cânon. O que temos hoje é a iluminação que é
trazida ao homem por meio da pregação histórico-objetiva
de Deus que continua sendo proclamada e salvando
o povo na história. Como Deus fez
no Antigo Testamento, fez também no Novo Testamento e
durante toda a história.
O Velho Testamento junto com seus atos históricos não apenas revelava Deus historicamente
(objetivamente), mas revelava Deus subjetivamente a um povo que Ele mesmo estava
salvando. Paralela à idéia da revelação, está à idéia de
conversão e salvação — Deus se revelava para redimir.
Pensando dessa forma, cada momento da história,
como a Páscoa, a circuncisão, o tabernáculo, o templo, enfim, todos estes
elementos históricos que foram realidades no VT, traziam consigo a vontade
revelada de Deus, a revelação redentora de Deus salvando um povo que continuada
e organicamente passava a conhecer a salvação. A Confissão de Fé de Westminster
diz que aquela revelação era suficiente para salvar os eleitos de Deus no Velho
Testamento. Dr. Geerhardus Vos se apodera deste ensino da Confissão para dizer
que esta revelação era perfeita, não porque não precisasse de outra revelação
para dar-lhe luz, mas porque aquela revelação estava ligada organicamente com
aquele que era o centro de toda revelação de Deus, Jesus Cristo. Por isso, não
temos medo de dizer, à luz de toda a Escritura Sagrada, que a fé que Abraão
tinha, nós também a temos porque o mesmo Espírito opera em nós. A esperança que
ele tinha nós a temos porque ouviu a mesma verdade — as boas novas do
Evangelho.
Gálatas 3:6
“É o caso de Abraão, que creu em Deus, e isso lhe
foi imputado para justiça. Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de
Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os
gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os
povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão”.
Foi trazida a revelação de Deus — O Evangelho foi
preanunciado. Isso é impressionante. Paulo enfrentava problemas na igreja da
Galácia e estes problemas eram relacionados com a questão das obras que eram
enfatizadas para a salvação. Então, Paulo se fundamenta em Abraão para dizer: “tendo
a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios”.
Deus, para justificar pela fé, preanunciou o Evangelho, isto é anunciou o
Evangelho a Abraão! Para que houvesse justificação pela fé foi necessária a
revelação do Evangelho que começou a ser pregado de modo inequívoco desde o
início da história da revelação. E os que criam eram salvos, pois criam nas
mesmas verdades, esperavam nas mesmas promessas, tinham a mesma esperança. Eles
criam na ressurreição como nós cremos, aguardavam uma pátria celestial como nós
aguardamos.
A Igreja no Velho Testamento é fundamentada no
conceito da unidade de toda a Escritura Sagrada. Conseqüentemente é importante
saber que a obra da regeneração no Novo Testamento se deu, não com uma raça,
não com um povo étnico, não com descendentes carnais, mas com os da fé. Então,
a quem Deus revelou a verdade, a quem Deus deu o dom da fé, a quem deu a
verdadeira esperança, e a mesma crença que é nossa? Paulo responde a esta
pergunta em Romanos 11:1-5
Romanos 11:1-5
“Pergunto, pois: terá Deus, porventura,
rejeitado o seu povo? De modo nenhum! Porque eu também sou israelita da
descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou o seu povo, a
quem de antemão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura refere a respeito de
Elias, como insta perante Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus
profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei, e procuram tirar-me a
vida. Que lhe disse, porém, a resposta divina? Reservei para mim sete mil
homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal. Assim, pois, também agora,
no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça”.
A questão que Paulo levanta é simples. Deus
rejeitou Seu povo? Não, de modo algum. Por quê? “Eu não sou israelita e fui
salvo”. Agora Paulo dá o conceito para colocar no tudo prumo certo. Antes
estava estabelecido o conceito de que Israel era o povo eleito apenas como
nação, como raça. Mas Paulo diz que isso é agora um equívoco. Quem é o
verdadeiro israelita? Não é simplesmente o que nasce em Israel. Paulo agora se
refere tanto ao povo do VT quanto ao do NT e diz que ambos estavam na mesma
situação e afirma: “no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a
eleição da graça”. Isto é, assim como foi no Antigo Testamento, é agora no
novo. Nada mudou! É a mesma coisa. No Antigo Testamento haviam os eleitos
segundo a graça de Deus. Não era porque nasciam em Israel que eles eram salvos,
pois haviam os eleitos dentre Israel. Por isso Paulo cita Elias que dissera:
“Senhor, eu estou só!”. Mas Deus lhe diz: “Nada disso, Eu reservei para mim
sete mil homens”. Ou seja, “Eu reservei para mim os que são fiéis. Dentro desta
nação existem sete mil que não se dobraram diante de Baal”. E Paulo conclui
dizendo que é assim também hoje que vive um remanescente segundo a eleição
da graça.
Como foi no Antigo Testamento, é assim agora no
Novo Testamento, pois os eleitos são salvos pela graça. E esses eleitos são
salvos através da revelação da verdade. E essa revelação é dada aos que recebem
o dom da fé, fé que leva à esperança. A Igreja do Antigo Testamento é o povo de
Deus do Novo Testamento. Somos salvos porque fomos escolhidos por Deus antes da
fundação do mundo, assim como os crentes do Antigo Testamento o foram. Fomos
salvos porque a nós foi revelada a palavra objetivo-histórica de Deus e nós cremos
tanto quanto eles creram nesta palavra revelada. Eles esperavam a pátria
celestial e nós também esperamos. Eles criam na ressurreição e nós também
cremos. Os crentes do Velho e do Novo Testamento historicamente receberam os
mesmos benefícios.
A Igreja eleita do Antigo Testamento recebeu a
revelação, creu e, com fé, esperou. Nós que somos a igreja do Novo Testamento
somos exatamente a mesma coisa hoje. A igreja existia no Antigo Testamento.
Implicações
Quais as implicações desta verdade para nossa vida?
1) Uma palavra aos pastores e à liderança. Aos
pregadores da Palavra que desejam cada dia aprender mais da Escritura se fazem
necessárias algumas mudanças. Abandonem a pregação apenas moralista do
Antigo Testamento e preguem a redenção que lá está. Pregue Cristo no Antigo
Testamento! Exalte o nome de Cristo no Antigo Testamento! Exalte o Cristo que
operou no povo do Velho Testamento da mesma forma como faz hoje, pelo Seu
Espírito. Ao Ministro da Palavra dizemos que ele abandone a pregação apenas moralista
no VT como é comum em nossos dias. Pregue a ética que provém da doutrina, mas
não moralismo. Terá de evitar a visão dispensacionalista que afirma que o
Antigo Testamento apenas serve de exemplo para nós. Errado! O Antigo Testamento
é muito mais profundo que isso. É a revelação da redenção histórica de Deus.
Para os pastores e pregadores do Evangelho essa
será a primeira e fundamental mudança que ocorrerá em suas vidas.
2) A liderança da igreja terá de buscar o
entendimento da unidade em toda a Escritura Sagrada. Há muito tempo nós
brasileiros trabalhamos contra isso. Na ignorância acreditávamos em uma
separação entre Israel e Igreja, e, mesmo não sendo de fato
dispensacionalistas, vivíamos recebendo grande quantidade de idéias
dispensacionalistas na nossa teologia. Dessa forma não conseguíamos ver a
unidade da Escritura. Tenho de dizer algo duro, mas que é a verdade. O pastor
verdadeiramente reformado, presbiteriano, que não é pactual, está equivocado ao
ficar contra suas convicções. Pastores e líderes que não crêem em um único
pacto, o pacto da graça (após a queda), que não crer nessa unidade da
Escritura, naturalmente vai trabalhar de modo a fazer um desserviço no ensino
da Igreja.
Por isso a grande importância de falarmos sobre a
circuncisão, batismo infantil, a páscoa, a ceia do Senhor, o templo e seu lugar
no Novo Testamento, para podermos entender que dentro da doutrina da unidade
escriturística existe um processo de entendimento e que a simbologia do VT foi
trazida à plenitude no NT. Não é que o foco tenha sido mudado, não, mas é que
chegamos ao ápice — Cristo — e quando temos a unidade, esse pensamento que
apresentamos aqui, nos fará ver a Escritura como uma única verdade. Veremos
como uma unidade.
O pastor que deseja se aprofundar na doutrina, como
pregador, deverá mostrar que na redenção haverá mudança de vida e necessidade
de obediência à Lei. Os pastores aprenderão que, depois de redimidos, nós
amamos a Lei.
3) O crente desejoso de aprender mais
profundamente a doutrina, verá que ele é salvo não pela obediência à Lei, mas
pela graça de Deus. Isso trará uma grande mudança na vida da igreja, porque
tanto no VT como no NT temos uma mesma mensagem: justificação pela fé somente e
não por obras.
O texto de Gálatas claramente diz que “tendo a
Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o
evangelho a Abraão”. Que Evangelho? O Evangelho da justificação pela fé
somente. Essa foi a mesma verdade da Igreja do Velho Testamento e que está
estabelecida na Igreja do Novo Testamento. A Igreja de hoje vai ter de rever
seu enfoque, sua perspectiva e seus conceitos serão aprofundados quando
retornar à posição confessional, o que talvez nunca tenha conhecido: A
Confissão de Fé de Westmister. Digo isso com muita seriedade. Fiz meu
bacharelado em teologia em um Seminário Presbiteriano e nunca estudei nossos
símbolos de Fé. A liderança presbiteriana está, com algumas exceções, ignorante
da sua confessionalidade, do seu conhecimento doutrinário sobre a Igreja. Por
isso, a melhor palavra que se adequa à nossa situação não é “retornar” e sim
“começar” a nossa eclesiologia de forma bíblica e reformada. Vamos aos nossos
símbolos de fé e veremos que lá estão estabelecidos estes princípios que
expusemos aqui. A doutrina do Pacto, a doutrina clara e inequívoca de que os
crentes do VT eram salvos pela revelação graciosa de Deus tanto quanto os
crentes do Novo Testamento. Veremos que a distinção que apenas fazemos é que no
Velho Testamento o evangelho era visto através de uma revelação manifesta nos
símbolos e tipos, porém eram perfeitos porque estavam conectados à Cristo.
Dessa forma vamos perceber com temor e piedade
diante de Deus, a mudança que estas verdades acarretarão à vida da Igreja de
hoje. Isso se faz necessário: abandonarmos os erros e nos apegarmos à verdade.
Amém.
Pr. Paulo Brasil
Fonte: Palestra proferida pelo Prof. Paulo Brasil
no SIMPÓSIO REGIONAL OS PURITANOS em Recife/fevereiro/2006
[i] Usamos esta expressão para evitar que se
pense que estamos defendendo revelação extraordinária hoje.